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Ou foste em immundicias gerado,
Em lagrimas e dores, nu nascido,
Em mingoas e miserías mil criado?
E es tão soberbo e tão descomedido,
Que inda em tanta abastança pobre sejas.
Da ma cubiça em todo o gráo subido 5
E em que do mundo uma grão parte rejas,
Julgas tudo por pouco e por pequeno,
E quanto mais possues, mais desejas;
Sem te lembrar, que quem c, um só aceno
Governa o mundo todo, e o fez de nada,
Quiz nascerl nu o pobre em palha e feno.
E tanto sempre foi delle louvada
A boa, honesta, humilde e sã pobreza,
Quanto a soberba vã vituperada.
Pois inda quem bem segue a natureza,
Foje a sobejidão, e o mal composto,
'Amando a temperança e a sã simpreza:
Nem iguarias mil de vario gosto
Fazem melhor estamago ao guloso,
Mas encruado, triste, e mal disposto.
O comilão e bebado gracioso '
Cuida que alonga a vida, e que a grangeia,
Grão mestre de cozinha e curioso,
Se elle so come e bebe n'uma ceia .
Mais que sete, com suja preminencía i,
E cuidando que atalha emfim rodeia: _
Porque em taes avantagens a opilencia,
O prioriz, a morte em fim se apressa
Com damno d'honra, d'alma e consciencia.

l No MS. lê-se o l.° verso d'este terceto :Sem te lembrares quem, etc.:

e o 3.° verso :Que nasceu nu, etc.: 0 MS. do sr. Seabra tem no l.° verso

esta variante :Sem te lembrar que quem, etc.: e no 3.° esta :Que nascer

quiz, etc. : Aproveitando-nos da lição deambos, repozemos a que vae no texto

que nos parece a verdadeira ou pelo menos a mais exacta. (Nota do Editor.)

2 No MS. do sr. Seabra lê-se assim este verso: :Mais que sete comendo 'com

' decencía: variante que nos parece preferível, mas que não ousámos substituir

a lição do MS. que tambem otferece um sentido, comquanto um pouco forçado. (Nota do Editor.)

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Vivendo homem caminha, e nuncaI cessa,
Ate chegar a morte, e ou tarde, ou cedo
Acaba, quando cuida que começa.
A estrada he larga e alegre; mas sem medo
E com carga oque a erra, des que chega,
La revolve de Sisypho o penedo.
Que logo tomam conta com entrega,
E sem mais outra espera, ou orsamento,
A receita e despesa descarrega. `
Quem do Senhor recebeu mais talentos,
Mais conta tem que dar do seu emprego,
Dos ganhos, perdas, quebras, crescimentos.
O rico pois, que vive em vão socego,
E não despende bem os bens dotados
Ou de 'sp'ritoou de terra, he mais que cego.
V-As grandes casas, rendas e morgados
Boamente sustem aos possuidores,
- E juntamente aos mais necessitados;
Não aos falsos truhães, aduladores,
Nem vãos, desordenados appetitos,
` Da vida e da alma em fim dissipadores.
_E o que rico se achar d*altos esp'ritos,
Seu talento do engenho e 'stilo terso
Empregue em ditos bons, em bons escriptos;
Sem que o dente invejoso, e o tempo adverso,
A lingua baixa, ma, vil, indiscreta
Lhe impida falar bem em rima e verso.
Em versos escreveu el-rei Propheta
Tudo o que lhe dictava a Divindade;
Em'versos o cantou, qual bom poeta.
Em versos escreveu a santa verdadel
Da santa historia |o Capitão da gente
Hebrêa, que elle poz em liberdade.

1 São conformes os MSS. antigos e o do sr. Seabra, em que se lé como acima vae escripto. O sr. Freitas poz n'este verso ponto marginal, indicativo de necessidade de emenda, que comtudo não notou. Parece provavel que o auctor escreveria :a sã verdade: até pelo uso frequente que-faz do epitheto' :sã sã: na accepção em que aqui deve tomar-se. (Nota do Editor.) ~

_ , i E bem se ve que em versos tristemente

Lamentou suas magoas Jeremias,
E o santo `lob humilde e paciente.

E quantos versos, hymnos, prophecias,
Metriticados canticos nos canta
Em suas santas festas e alegrias

Nossa querida Mãe 4, a Igreja santa,
A seus filhos, catholicos Doutores,
Que triumphante sempre ella levanta,

Com outros mil poemas, que a cantores
Se ouvem de consonancia e engenho doce,
Por príncipes compostos e senhores!

E que em tempos dourados isto fosse
Mais prezado que agora, e mais_validos
Os poetas, e tidos n'outra posse;

Os premios da virtude merecidos,
Inda que os maos lhe chamem disparates.
Nunca de todo podem ser perdidos.

Dão barbaros cada hora mil combates
Aos doutos, e a ferro e a fogo os seguem,

' Não os socorre Augusto, ou Mecenates.

Mas assim perseguidos, so soceguem
Em sua Musa, 'e d'agua d'Aganippe
A terra inculta, secca e dura reguem.

E bem que aveia esteril se antecipe f
Pera afogar a boa semente, e tclha
Que o juizo Real a partecipe;

Não poderá tolher que se não colha
Alguma hora o bom fructo, e o bom esp'rito
Em seguro celleiro, que o recolha.

l Preferimos esta lição do MS. do sr. Seabra a do MS. antigo :A nossa Santa Mãe: por causa da repetição do epitheto :santa: duas vezes empregado n'este verso, e uma no antecedente, onde tambem no MS. do sr. Seabra em vez de :santas festas: se le: :divinas festas:; sobre outras repetições proximas do mesmo -epitheto nos versos 245!' e 2L9.°, e no verso 244:' não se fazendo a emenda indicada acima na nota l. (Nota do Editor.) l

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Quando a grande abondança foi no Egypto '.
O preso e santo moço-era estimado
Tão pouco, como o pão era no Egypto 2.

Mas como persuadiu, por Deos guiado,

Com tempo pera a fome ainda futura,
Que fosse o mais do pão encelleirado:

A0 sonho de Pharaó deu boa soltura,

E a si mesmo e aos seus deu honra e preço,
Deu ao faminto povo grão fartura.

Camões, bem te confesso, e bem conheço,
Que entre o joio infelice e ma zizania
De tanto mao costume, e em tempo avesso,

Engenhos nascem bons na Lusitania,

E ha copia delles, que é menoscabada
Dos maos, e nomeada por insania. .

Por isso, como preso em tua pousada,

Solta este sonho, e esperta o adormecido
Tempo com tua voz bem enteada;

Qual ella é, clara e pura, em som devido,
Decente, honesto e grave, ate que chegue
Aquelle affable e real ouvido 3.

Farás que estime, que honre, e que a si chegue
Os que bebem na fonte Pegasea; '
Que seu favor lhes mostre, e não lho negue:

Como o bom rei da patria da Sereia *t
Aquelle inclyto Affonso, que amou tanto
Os doutos e avisados dialta veia.

l Genesis, cap. xvr. (Nota do sr. Freitas.)

2 A repetição da mesma palavra na rima faz suspeitar n'este verso algum erro de copista. No MS. do sr. Seabra leem-se estes dois versos assim: :O santo moço era inda estimado:, :E qual captivo servo era prescripto: talvez erro de copia por :proscripto :. (Nota do Editor.)

3 Na copia do sr. Freitas ha um ponto marginal n'este verso, que indica ter elle julgado haver erro ou falta, que todavia nao emendou. Suppre porventura esta falta o MS. do sr. Seabra, no qual se le: :Aquelle tao affable real ouvido.: (Nota do Editor.)

4 Imitação de Garcilasso, Elegia a Boscan, verso 37.n (Nota do sr. Freitas.)

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l No MS. do sr. Seabra le-se: :Aos estranhos pasmo causará e espanto:; liçtto que nos parece melhor quanto ao sentido; e bem que assim fique o verso errado, poderia corrigir-se :A estranhos: ou apenas escrevendo :Aos 'stra~ nhos, etc.: (Nota do Editor.)

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