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fingindo faltar-lhe as vezes com o promettido para lhe arrancar ditos espirituosos e .chistosos; Faria e Sousa tira d'aqui pretexto para arguir aquelles fidalgos, que diz que tinham alma de gallinha; longe porem de ser da opinião' do commentador, eu só encontro niestes brinquedosuma prova de estimação e de intimo trato dos ditos fidalgos com o nosso auctor, o qual sem duvida ao serio não soth'eria tão ridicula paga pelos seus versos divinos. Indo o Duque de Aveiro ouvir missa a Nossa Senhora do Amparo, ahi encontrou o Poeta, e perguntando-lhe o que queria da sua mesa, respondeu-lhe logo que bastava que lhe mandasse uma gallinha; esqueceu-se o Duque, ou fingiu esquecer-se, e depois de haver jantado, quando já não havia outra cousa, lhe mandou uma peça de carneiro, e o Poeta pelo mesmo creado lhe remetteu estes versos: ` * ' Ja eu vi a taverneiro Vender vacca por carneiro, Mas não vi por vida minha Vender vacca por gallinha, Se não ao Duque de Aveiro.

D. Antonio, senhor de Cascaes, por uns versos lhe havia promettido seis gallinhas recheadas, e por gracejo lhe mandou por principio de paga só meia gallinha; accudiu logo o Poeta com esta copia:

Cinco gallinhas e meia
Deve o senhor de Cascaes,
E a meia vinha :cheia

De appetite para as mais. e

Outro por uma carta de amores lhe mandou quatro frangãos, sem duvida em logar de gallínhas; o Poeta não lhe perdoou, e juntamente com a carta lhe enviou estes versos:

Moscas, abelhas e zangãos
Me comam botes, e baço,
Se outra como esta faço

A troco de quatro irangãos.

A virtude quandoA passa ao excesso degenera em vicio; ninguem dirá que um bem calculado equilibrio da receita e despeza não seja uma

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condição necessaria para o bem estar da existencia; mas se de economia passa ao desejo hydropico de amontoar e enthesourar riqueza inutil, produz o vicio mais sordido e desprezível, o da avareza. Do mesmo modo se 'o coração magnanimo e generoso acha uma agradavel voluptuosidade em repartir a fortuna adquirida, se isto e feito com mãos largas produz o vicio opposto, o da prodigalidade, e se e cabeça de familia o que o pratica. são victimas os dependentes, e se é isolado o proprio individuo. D'este vicio, que aliás tem a maior'parte das vezes uma origem nobre, foi o nosso Poeta tocado, e a elle altribue Pedro de Mariz os seus emharaços e infortunios, dizendo que como era grande gastador mui liberal e magnifico, pouco lhe duravam os bens temporaes.

Foi mais o Poeta fragueiro de corpo e de um animo esforçado, como attestam as honrosas cicatrizes que apresentava no seu rosto.

Agora experimentando a furia rara De Marte, que`nos olhos quiz que logo Visse e trocasse o acerbo fruto seu, E neste escudo meu ' A pintura verão do infesto fogo. Em o seu poema se abona a El-Rei D. Sebastião, como soldado valoroso e atfeito ás armas.

Para servir-vos braço ásarmas feito. E na carta 1, escripta da India, passa em revista alguns valentões que ali militavam, e n'este numero menciona a Calisto de Siqueira, que Diogo do Couto nos diz que era o maior espingardeiro do mundo, e dequem conta bravuras; a maneira ironica como o Poeta falla n*elle, dizendo que promettêra em uma tormenta conduzir-se mais humanamente, da a crer que entre ambos se travaram rasões. N'esta mesma carta nos diz, que antes da sua partida de Lisboa, vira as solas dos pés a muitosy mas que nenhum lhe vira as suas. Esta opinião, embora justificada, do seu. valor, não só o lançou em rixas, as vezes involuntarias, e embaraços, mas dava logar, ao que parece, a que os amigos e camaradas o apodassem co_m a alcunha _doTrz'nca-fortes, como se deprehende de um epigramma do seu amigo Antonio Ribeiro Chiado, em um certame poetico e graciosa, sendo o premio, posto por um fidalgo, uns melões que tinha em uma giga uma- regatcira:

Luiza tu te avisa
Que taes meloens lhe não des,
Por que esse que ahi ves
Trinca fortes mala guisa.

Algum Catão severo não perdoará ao Poeta o ter ás vezes sacrificado a Venus; nós porém lembrando-nos que'todos somos filhos de Adam, pedimos alguma indulgencia para com elle, quando temos a confessar uma aberração sua, isto é, os seus amores com a escrava Luiza Barbara. Debalde o Poeta se esforça emresponderl á critica que experimentava por este motivo, na bella ode x, trazendo em seu favor os exemplos de Achilles, Salomão e Aristoteles; não colhe o exemplo do primeiro, pois no mesmo Horacio (ode iv, liv. u), dionde o Poeta tirou o pensamento d'esta ode, se encontra a diil'erença da côr do objecto amado.

Ne sit ancillze tibi amor pudori
Xanthia Phoceu; prius insolentem
Serva Briseis m'veo colore,

Movit Achillem.

_ Podiamos adduzir em defeza do Poeta, o verso do seu collega epico e admirador, o grande Tasso: .

. .A . . . . . . . . . . . . . . . . . . . la Regia moglie
Che bruna e si, ma il bruno il bel non toglie:

e se em objecto de tal natureza podessemos citar os Livros Sagrados o

Nigra sum sed formosa. _

Porém a verdade e imparcialidade que havemos tomado a peito desde

o principio d'esta memoria, só nos permitte attenuar, mas não justificar um erro. Diremos pois em sua,defeza que se o porco de Epicuro se incamou passageiramente no corpo do Poeta, a sua alma divagou quasi sempre em uma região etherea e platonica, e que esta distracção parece que só teve logar depois que a morte apagou aquella luz radiante que o vivificava, e que ficando solitario, e em trevas no mundo,

1 Vide nota 72.'

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parece que tambem nas trevas quereria viver: que a escrava talvez fosse d'cstas pardas asiaticas, que apresentam ás vezes fórmas esbeltas e feições regulares, pois aliás me parece que a poesia do nosso Poeta, descrevendo os cabellos, apesar de poderosa, não teria mais força do que o pente em uma rebelde carapinha. Talvez a alma mais candida ` habitasse um corpo negro, principalmente se e verdade o que se diz

que ella saia a mendigar-lhe o sustento, lhe amansasse os tormentos da vida, lhe adoçase as amarguras, e assim a gratidão ultrapassase os limites da amizade.

Presença serena

Que a tormenta arnansa,

Neila emfim descança

Toda a minha pena.

Esta he a captiva

Que me tem captivo,

E pois nella vivo

He força que viva.

Diremos finalmente com o mesmo Poeta:

Fraquezas são do corpo que he da terra,
Mas não do pensamento que he divino.

l Porém se 0 censor severo ainda assim se não inclinar a desculpar esta fragilidade, leia os lindos versos feitos á mesma escrava, que deveram a honra de uma traducção de Chateaubriand; e, tal é o poder do genio! talvez o mesmo leitor se enamore da escrava.

Mas apesar de algumas fragilidades, e quem as não tem, como avultam virtudes tão reaes? Que incendido enthusiasmo e amor pela patria! Como o devora o desejo de exaltar e fazer sobresair o elogio da sua querida patria, especialmente nos cantos rn e vn, quando descreve a Europa, e na invectiva que dirige as nações poderosas que se guerreiam em logar de converter os seus'esforços contra o inimigo commum! Como é minado pela saudade, longe da terra natal!

Esta he a ditosa patria amada

Á qual se o ceo me da que eu sem perigo
Torne com esta empreza já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.

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Note-se que o Poeta não profere uma só vez o nome da patria, que não seja revestido de um epítheto amoroso e de 'ardente patriotismo.

Que bellas maximas! que lições tão moraes apresenta o seu Poema, que nobre liberdade em exprimir os seus sentimentos! É a um rei a quem se dirige, e não receia tocar na injustiça e ingratidão de seu bisavó, nos erros de seus antepassados, e o que é mais ainda, nos do proprio monarcha e d'aquelles que o cercavam.

Via Acteon na caça tão austero
De cego na alegria bruta insana, -
Que por seguir hum feo animal fer-o,
Foge da gente e bella forma humana.
Ve que esses que frequentam os reaes
Paços, por verdadeira e sãa doutrina,
Vendem adulação que mal consente
- Mondar-se o novo trigo florecente.

Ao mesmo tempo que elle deseja ver os religiosos afastados das tem_ poralidades, -elle os quer ver circumscriptos no seu santo instituto. O final do seu poema é um verdadeiro cathecismo de reis, que os nossos deviam trazer sempre na memoria, como expressões saidas de um coração portuguez, de um homem honrado e de um verdadeiro amante da sua patria. Mas se se apresenta como um advogado do povo opprimido e ousa com nobre ousadia dizer perante o mesmo rei:

Leis em favor do Rey se estabelecem,

As em favor do povo só perecem;

elle não vem como vil adulador captar a benevolencia inconstante d'esse mesmo povo, tão facil em embriagar-se nos seus amores e odios, antes pelo contrario o não poupa quando consola a D. Constantino de Bragança, apontando-lhe' os exemplos de ingratidão para com Thernistocles, Cimon, Aristoteles e Demosthenes.

Demosthenes lançado das tormentas
Populares, a Pallas foi disendo,

Que de tres monstros grandes te contentas,
Do Drago, e moucho, e do vil povo horrendo.

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