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esta fórma á imaginação e espirito publico, fazendo com que a purpura real se _couvertesse em vestes sacerdotaes, na pessoa do ultimo Rei portuguez, que parecia o destinado para celebrar as exequias da patria. Um eclipse fazia-se tambem observar no mesmo momento em que o Rei se finava, fatídica revelação de que se ía eclipsar, com a morte do ultimo Rei portuguez, a gloria e a independencia de Portugal.

Os seis mezes que se seguiram a morte do Cardeal, epocha que na nossa historia se designa pelo tempo das alterações, foram os ultimos paroxismos do paiz, do qual se havia apoderado a gangrena. A`corrupção da Asia tinha pervertido os antigos costumes dos portuguezes,' a uns acareou o oiro e promessas de Castella, a outros tinha intímidado o seu grande poder, não faltando quem por força de inercía e de egoísmo, olhasse com índitierença os males da patria; aquella mesma espada de um D. João de Mascarenhas, que tinha brílhado com tanto fulgor por cima das ameias de Diu, se embacíava com o halito pestifero da traição. Ainda porém uma centelha do antigo valor portuguez pretendeu atear-se n'esta derradeira hora, e patríotas decididos correram após a unica voz que lhes bradava: liberdade e patria. Mas nem o Príncipe que os capitaneava, postoque apparentasse similhança no defeito do nascimento e na ambição com o Mestre de Aviz, tinha a aptidão d'este para levar a cabo urna tão santa empreza, nem desgraçadamente as vontades se achavam accordes, para resistir a forças tão desíguaes. A bora fatal marcada pela Divina Providencia, que na sua alta sabedoria ergue ou abate os imperíos, era chegada; mais de um pretendente, como aves de rapina, míravam o cadaver; mas a presa devia pertencer aquelle que a astucia da rapoza juntava a força do leão.

No número diaquelles que pretendiam ainda oppor uma resistencia, por isso que debíl, mais generosa, as forças de Castella, folgamos de contar os amigos mais íntimos do Poeta; D. Manuel de Portugal, o seu Mecenas; o conde de Virníoso, caudílho principal das forças patrioticas l; D. Francisco de Almeida, que na comarca de Lamego andava juntando gente para resistir a Castella, e outros. Figura-se-nos ver o leito do Poeta moribundo, cercado de soldados bisonhos a quem proclamava, e de antigos camaradas a quem dava conselhos patriotícos e experimentados. Era este o ultimo esforço de patriotismo que restava aquelle que desesperando da patria, e tolhído em um leito, não podia cumprir a vontade de se arremessar por entre as lanças do inimigo.

l Vídt` nota 69.Il

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Esmagado com tanta infelicidade, e com tão pouca esperança do futuro andava o Poeta, e a unica diversão e allivio, que tinha aos seus soffrimentos em os ultimos tempos da vida, os encontrava, como o Tasso, com quem podemos comparar em mais de uma occasião o nosso Poeta, em o retiro de um convento. «Fiz-me transportar (escrevia aquelle ao seu intimo amigo Constantino, despedindo-se dielle poucos dias antes de morrer) a este mosteiro de Santo Onofre, não só porque os medicos julgam estes ares mais sadios, do que os outros bairros de Roma; mas para começar de alguma maneira, d'este logar elevado, e com as conversações d'estes santos religiosos, as minhas conversações com o ceu. Rogae a Deus por mim, e estae certo que se n'esta vida vos hei sempre amado e, honrado com tanto extremo, farei por vós na outra, que é a verdadeira, tudo aquillo que convem a uma verdadeira e sincera caridade. Recommendo-voš á graça divina, em cujas mãos piedosas eu mesmo me entrego» O nosso Poeta, do mesmo modoI se arrastava ao convento de S. Domingos de Lísboa 4, e ahi se distrahia com a pratica dos padres, assistindo ás suas prelecções de theologia, e assim procurava algum allívio aos seus contínuos dissabores e írifortuníos. Para mais calamídade, e fama que lhe faltara o Jau, o seu Antonio, que dizem que da caridade publica lhe mendigavaio sustento. Tantos sotfn'mentos de espirito e de corpo, que, como duendes malfazejos, lhe circumdavam o leito de angustias, de pobreza e molestías, não podiam deixar de ser precursores de uma morte proxima. Elle a esperava, ou para melhor dizer a desejava, como se ínfere da carta que pouco antes escrevia a D. Francisco de Almeida *, que na comarca de Lamego andava juntando gente para resistir a Castella, na qual, depois de fazer a triste pintura das facções que dividiam o paiz, lhe diz estas palavras: «Em fim acabarei a vida, e verão todos que fui tão affeíçoado a minha patria que, não só me contentei de morrer n'ella, mas com ella l» Conunove e parte o coração, como em outra carta descreve o estado de desdita e extrema miseria, em que lutava niestes ultimos dias da-vida, entregue a adversidade, a fome, dores do' corpo e impressões moraes extremamente do. lorosas: « Quem ouviu dizer que em tão pequeno tbeatro, como o de um pobre leito, quizesse a fortuna representar tão grandes desventuras! E eu, como se ellas não bastassem, me ponho ainda da sua parte, porque procurar resistir a tantos males, pareceria especie de desvergonhamento. ››

l Vide nota 70.' 2 Vide nota 71."

Foi n'este estado de extrema miseria, que na presença de uma epidemia que picava novamente na cidade, em um pobre leito, cruciado pelas enfermidades, apoquentado talvez por credores, o Poeta escreveu o soneto ccxxxrv, em que invoca a morte para o libertar de tão graves torturas: .

0h! quanto melhor he o supremo dia
Da mansa morte, que o do nascimento!
Oh! quanto melhor he hum só momento
Que livra de annos tantos de agonia!

De alcançar outro bem cesse a porfia,
Cesse todo aplicado pensamento
De tudo quanto da contentamento,
Pois só contenta ao corpo a terra fria.

. O que do seu fez Deus o despenseíro,

Tem mais estreita conta que lhe dar,
Então parece rico o ovelheíro.
Triste de quem ao dia derradeiro
Tem o suor alheio por pagar,
Pois a alma hade vender pelo dinheiro. g

No meio de tantos desgostos não podia deixar de sentir o mais vivo desejo de trocar os trabalhos mortaes, que tão pungentemente o dilaceravam, pelo descanso de uma vida'ínfiníta e sem dor, nutrindo no coração, como verdadeiro catholíco, o sentimento do Apostolo: Cupio dissolei et esse cum Christo. Comtudo, parece que. foi porfiada a luta da vida e da morte; o dia, talvez pela ultima vez, que na revolução do tempo marcava a epocha em que havia sido lançado na voragem do I mundo, surgia mais uma vez no horísonte, não radioso de esperança,

l rico de illusões e de sensações agradaveis, porém carregado e pejado com todo o peso do desengano e do infortunio. *

É nestas circumstancias que a' dor arranca ao Poeta do fundo dialma um intimo e profundo gemido, e, em uma de suas poesias (ineditas), pragueja esse dia, que um uso ou abuso da sociedade nos faz festejar, e que só denota que entramos n'um mundo onde o primeiro acto da vida é o chorar: ~ í

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Que soffrímentos eram necessarios para arrancar de um homem da tempera do nosso Poeta, avezado aos trabalhos mais asperos do corpo, e a desgostos os mais profundos, 'expressões de tanta amargura!

Mas niesta hora solemne e fatal, na qual caem todas as decepções, e em que as flores da vida, se alguma houve, se tornam em pungentes abrolhos, em que ainda a saudade do nada que deixamos nos affecta, comquanto se antolhe já a eternidade, se a morte nos tomou de subito ainda no meio da. carreira, e a apathíca insensibilidade da velhice nos não annuviou os olhos para não vermos o escabroso do transito, nos não embotou o paladar' para não saborearmos'o amargor das ultimas fezes da vida que se escoa, uma consideração importante e consoladora deve acudir para allívío ao christão moribundo, e é esta, que se a Pro'videncía Dívína permitte na sua alta sabedoria que a mais bella alma seja agitada no mundo pelos maiores revezes da fortuna, e porque lhe reserva mais vantajoso quinhão na gloria dos justos.

Era o Poeta mortal, e por isso sujeito as fraquezas humanas; e assim, se na maior força da amargura da vida lhe resvalava dos labios alguma imprecação írreflectida, logo se acoutava a religião, e mais de uma vez I nos Livros Santos, no livro de Job, n'este exemplar da paciencia na adversidade, procurava remedio e resignação para o soffrimento. Agora porem mais suave balsamo buscava, como conforto, nos Sacramentos que a Igreja, como mãe carinhosa, administra aos seus filhos; e isto não só conjectura assentada em bom fundamento, nos principios relígíosos do Poeta, mas ainda o assevera um escriptor da sua vida.

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Mas era ja tempo que aquelle corpo, mutilado pela espada do ínimigo, alquebrado pelas ondas do mar, requeimado pelos ardores do sol da Africa e da Asia, opprimido pelas molestias que .trazem os trabalhos do corpo e do espirito, repousasse; recebeu-o a terra em seu seio benetico, onde se acabam as fadigas d'esta vida transitoria e começa outra de paz e infinita. Os exercítos de Castella iam invadir Portugal, ja estavam proximos a nossafronteira, quando o Poetalutava entre a vida e a morte; uma catastrophe como esta, maior de quantas tinha experimentado ein vida, não podia deixar de levar a ultima ferida mortal aquelle coração portuguez, cheio de amor por aquella sua outr'ora ditosa patria. Succumbiu cumprindo-se-lhe o desejo de morrer n”ella e com ella, aos cincoenta e seis annos de idade, no dia -IO de Junho de 15804. Este anno, nefasto nos annaes portuguezes pela perda da independencia nacional, e que marca aquelle em que 'teve fim tão' atormentada existencia, foi fatal para o genio; ao mesmo tempo, que agonisava Camões, e se lhe não cabia na terra a brilhante ovação do Capítolio, ia receber no ceu este excellente Poeta e melhor cidadão mais gloriosa corôa, jazia encerrado em umhospital de doidos o Tasso, arrastava pesados grilhões em uma masmorra da Africa Miguel Cervantes, e exercia o vil oflicío de magarefe Shakspeare. Este 'anno nos arrebatou tambem o Cícero portuguez, o Bispo Jeronymo Osorio, e o grande D. Luiz de Athaide, esse ultimo gigante da gloria portugueza, que poucos momentos 'antes acabava de arcar com todo o poder da Asia, colligado contra- os nossos dominios. Feliz o heroe da India que preferiu talvez, como o nosso Poeta, estalar de dor, ao assistir as exe- w quias da sua patria! \ `

Pouco tempo depois, quando Filippe II deu a sua entrada em Lis- '

boa, procurando' pelo Cantor dos Lusiadas, e dizendo-se-lhe que era fallecido, se mostrou pezaroso; porem temos toda 'a rasão para acreditar, pelos precedentes do Poeta, que elle preferiria a sua pobreza lion, rada a receber o oiro envilecido das mãos do tyranno da patria. Comtudo exige a imparcíalidade que se diga que conservou 615000 reis dos l_äãOOO reis que elle recebia 2, a sua mãe Anna de Sá, attendendo aos serviços do filho, feitos na India e no reino, e não lhe ficar outro herdeiro, e ser ella muito pobre e velha, inteirando-lhe depois a pensão dos l5¢5000 reis,3 no anno de l58a, epocha em que ainda era viva.

I Documento K.
2 Documento J.
3 Documento I..

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