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l). Antão de Noronha, e mais amigos alem d'aquelles que o trouxeram em sua companhia apatria. Exerceu o officio de Provedor dos defuntos na China, onde parece ter grangeado algurna fortuna; e que culpa tiveram os homens de que as ondas do mar, com implacavel sanha e voracidade, lh'a absorvessem? agradeçamos-lhe, ainda benignas, terem-lhe poupado a vida e com ella, a nós, o seu Poema immortal. Elle mesmo confessa por sua propria beca não lhe faltar o necessario na idade florente, na sua resposta a Ruy Dias da_Camara, o qual havendo-lhe pedido que traduzisse os Psalmos penitenciaes, e queixando-se este fidalgo que passado tempo e instancias suas e não tivesse feito, tendo elle escripto tantos e tão singulares poemas, respondeu: «Senher, quando eu os fazia achava-me na idade florente, favorecido das damas, e tinha o necessario, e agora me falta tudo, que ahi está o meu Antonio, pedindo-me quatro maravedis para carvão, e não tenho para lifos dae» Este favor das damas, uma independencia de caracter quasi sempre inherente a um espirito superior, certa liberdade de dizer pouco aceita a cortezãos, alguns tiros satyricos contra os homens em poder, foram sem duvida as causas da pouca fortuna do Poeta. Camões, como o Tasso, tinha em si um germen de infelicidade irresistível; esse genio sublime que despedia, como a aguia, arrojados vôos ao ceu, não podia rastejar corno um verme desprezível debaixo dos pés da dependencia. Não admira alem d”isto que`o auctor das Rimas, pouco divulgadas nas mãos de um ou outro amigo, tendo que manter o passo a um Sá de Miranda, em grande voga, a um Bernardes, todo cortezão, e outros, fosse pouco apreciado até o seu regresso a patria. Foi então que o Poeta nacional ' foi inteiramente conhecido pelo seu Poema, que dos estranhos deveu, entre outros elogios, o do seu emule em gloria e desventura o celebre Tasso, e entre os nacionaes, alem da exaltada veneração que desde logo lhe tributaram, o parco premio pecuniario da tença de que lhe fez mercê o Soberano, primícias talvez de outros maiores. Digo primícias, porque se a fortuna caprichosa tivesse de outra maneira favorecido e joven monarcha, o nosso Poeta se destinava a cantar a sua expedição, e bem natural e que este Princípe, em cujo peito, por fatalidade nossa, ardia tão exagerado incentivo de gloria, não deixaria morrer à mingua o seu Homem; porém a sorte, sempre inconstante, arrojou na mesma sepultura a nação, o Poeta e o Monarcha que o devia galardear. Assevera Faria e Sousa que os pezares de Poeta augmentaram com a escolha que, com exclusão d'elle, se fez de Diogo Bernardes para cantar em verso heroico o assurnpto da expedição do Rei, e isto por lem

brança e instigações do Cardeal. Pede comtudo a justiça, apesar do pouco que prezârnos a memoria d'este Rei pela .cobardia e egoísmo com que preparou a nossa desgraça, que demos pouco credito a asserção do commentador. Como se podia offerecer competidor a Camões, depois da publicação dos seus Lusiadas? Alem diísto, quebrantado pelas enfermidades, encostado a umas muletas, como no-lo representa o mesmo Faria e Sousa, como podia elle seguir os seus companheiros de armas a uma empreza, onde tão necessario era que o vigor do corpo se juntasse ao ardimento do coração?

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Se não foi permittido ao Poeta seguir e Menarcha portuguez na sua . mallograda empreza, e succumbir em companhia de tantos valorosos soldados, persuadimo-nos, e com boa rasão para o acreditar, que elle o acompanhou na sua primeira expedição a Africa, e que a espada do soldado veterano da Asia se desenferrujou ainda em uma pequena escaramuça. Uma interrupção que se nota n'este anno no pagamento da tença, por não estar assentada no Livro da Fazenda 4, não podendo attribuir-se a descuido da parte de quem tinha tão vivo despertador como a miseria, denota ausencia. A elegia xrx, dirigida ao joven D. Pedro da Silva, que n'este tempo governava Tanger, na qual refere uma entrada em terra dos mouros, e a tomada de um celebre capitão por nome Alafe, parece ser escripta sobre o local; pois narrando este feito de armas do joven guerreiro portuguez, e referindo-se ao mouro apriK sionado, diz: O Este que toda'a grande Berberia Tinha por mui prudente, e anímoso,

Agora o tens na tua estrebaria.

Acresce a estas, emquanto a nós, quasi provas, o genio e propensão do Poeta, que achando-se com soffrivel disposição de saude, lhe não soffreria o animo ser simples expectador de uma expedição militar que era tanto do agrado do Rei. Mais tarde só lhe restava o desejo de o acompanhar; o braço forte e robusto, que outriora tinha empunhado a espada tão pesada contra os inimigos da sua patria, apenas pedia me

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near a penna ligeira para cantarl as, ainda mal, tão falsamente preconisadas victorias, com que o valoroso Principe lisonjeava a sua imaginação guerreira a tal ponto, que ia o sermão de graças encommendado. e a corôa com que devia ser coroado Imperador em Marrocos.

Que o Poeta se destinava a cantar esta empreza, na dedicatoria do seu poema dos Lusiadas, o declara, e mais que tudo se manifesta no privilegio que se lhe concedeu para a publicação ,do seu livro, em o qual se faz menção dos novos cantos que acrescentasse, e n'isto parece que quiz seguir aVirgilio, que a Eneida, dizem, quiz estender a vinte e quatro. E que'outros podiam ser estes em um poema completo como o do nosso Poeta, senão _talvez o acrescentamento do ru, com as victorias africanas do joven Rei D. Sebastião? Camões muito bem podia delinear e compor expressamente um Poema sobre o ousado feito que esperavacantar, porém acertadamente julgou que mais ia para a fama do Rei que pretendia exaltar, dar-lhe entrada no grandioso templo da gloria lusitana,l que bem assim podemos chamar a maravilhosa fabrica da sua. epopea. ` ' .

Esta foi talvez a primeira idea do Poeta, porém vemos que depois variou o pensamento; pois apenas El-Rei D. Sebastião saiu o porto de Lisboa, esperançado o Poeta que voltaria com a victoria, começou a , traçar e escrever em um poema sobre o assumpto 4, e tinha já muitas estancias escriptas, quando veiu a noticia da sua perda. Foi tal o sentimento que experimentou com a nova d'aquelle successo, que logo queimou o que tinha escripto d'este poema, o qual, segundo a opinião de Bernardo Rodrigues, seu amigo e tambem poeta, que o tinha visto, e a Faria e Sousa o affirmou, excedia osLusiadas, e andava o Poeta como assombrado; e acrescentava o mesmo, e Manuel Ribeiro e Alvaro de ` Mesquita seus amigos, que perdeu logo o furor poetico e nunca mais tomara a penna para escrever versos. _

Com quanto pezar temos a lamentar, e por tantos motivos, que o Poeta não tivesse occasião de celebrar esta expedição militar! Se ainda hoje nos agradam tanto os capitulos do delicado e elegante monge Fr. Luiz de Sousa, em os quaes conta os combates da Africa, 'e nos parece que o frade quer largar o habito para pegar ainda na espada, com que gosto teriamos um poema, escripto por um poeta tão superior' e conhecedor das cousas da Africa! Que bellezas não devia apresentar este excellente poema! Que interesse no bem trabalhado das descripções locaes! no

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l Vide nota 66."

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descrever das batalhas, costumes, crenças e tradições mouriscas! de que sabor africano não deveria ser repassado! Que predicções sobre os successos futuros da Africa! .Quem sabe se a politica teria tanto a ganhar como a poesia! Com que energia o Poeta, que primeiro ergueu a voz a favor da Grecia opprimida, a não levantaria chamando os povos a concorrerem para a civilisação da Africa, e com que arte não expenderia as Isuas opiniões politicas sobre esta parte do mundo, as quaes põe na bôca do velho, que no canto lv dos Lusiadas vocifera contra os nossos, que iam tão longe buscar o inimigo, tendo-o as portas para o combater! e

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Mas voltemos a um'assumpto de que nos temos desviado, isto é, sobre a ingratidão nacional para com o Poeta,'e em que convein demorarmo-nos mais alguma cousa, para completa defeza d'esta nossa nação tão abocanhada, como digna de melhor sorte. Já temos visto quaes foram em parte as causas da pouca fortuna do Poeta em varios periodos da sua vida, e até á publicação dos seus Lusiadas; vieram depois as calamidades publicas augmentar-lhe o infortunio, desviar a lembrança, e afrouxar a vontade de galardoar o grande Cantor portuguez, fazendolhe beber pelo mesmo calix de amargura por onde bebia uma nação . inteira. Na sua volta á patria, mal acabava de se extinguir a peste, que fora começo da serie inaudita de desgraças, que precederam a fatal catastrophe de Alcacer-kibir, e duraram até os ultimos momentos de Camões. Quaes estas foram, preferiria eu descreve-las com as palavras do illustre Prelado de Viseu, na biographia do nosso Poeta; porém faltaram-lhe as cores onde molhasse o seu rasgado pincel, deixando-nos apenas o esboceto de tão amarguradas desventuras; levanta-lo-hemos nós com mão menos experiente, mas com novas cores para terminar o quadro que o habil escriptor deixou incompleto. «Póde ser que se não achem na nossa historia, diz o Sr. Bispo, sete ou oito annos mais desgraçados, excluindo os sessenta em que estivemos privados da liberdade, e os que principiaram no memoravel Novembro de 4807, do que os que correram de l572 a 1579, epocha do fallecimento do Poeta» E na verdade, calamitosos foram elles! 'porem quando o biographo escrevia aquellas regras, ainda o sangue portuguez não tinha sido vertido a jorros por essas campinas, que só deveriam ser regadas pelas crystallinas aguas de seus rios; mas corremos os olhos sobre males proximos que presenceamos, para expor outros, aindaque mais ao longe passados, não menos graves.

0 anno de 1572, se houve a distracção das festas e jogos de cannas, a que El-Rei assistiu com a Infanta D. Maria e damas em Santo Amaro pela chegada do Vice-Rei D. Luiz de Athaide,' victorioso dos reis da India, nem por isso deixou de se apresentar medonho. A mais horrivel tempestade carregou sobre o porto de Lisboa, começando a l3 de Outubro á meia noite a soprar um vento do sul, que desabou em furioso vendaval, destroçando não só a armada surta no Tejo, que estava apparelhada para a liga contra o Turco, e que parece devia acudir'a Carlos IX, no caso de ser perseguido pelos huguenotes, mas todos os outros navios ancorados no rio. A descripção d'esta tormenta feita _ por testemunha ocular, dionde extrahimos esta noticia, é espantosa; uma das mais bellas naus veiu dar em terra, e se despedaçou na praia do Corpo Santo, junto as casas de Manuel Corte Real; outra varou no Caes da Rainha, que levou comsigo com a furia do embate, fazendo-se a nau em pedaços; o mesmo aconteceu a outras que foram dar com os outros caes e na praia; e só na da Boavista deram em terra quinze naus, quasi todas da armada; viam-se as praias cheias de mortos e destroços, estendendo-se os estragos do temporal, em terra, aos edificios. N'este mesmo anno chegou a nova de França da cruel matança, mandada executar-l por Carlos IX, nos herejes, em o dia 24 de Agosto da invocação de S. Bartholomeu.

A noticia dtaquelle triste successo, tal é a cegueira quando somos dominados de paixões violentas, aindaque se siga a mais santa das cau- sas, foi recebida em Lisboa com repiques de sinos e luminarias, e na Igreja de S. Domingos se fez uma festa em que pregou o celebre fr. Luiz de Granada, e leu ao povo o despacho do embaixador portuguez em Paris, em o qual este sanguinolento acto era narrado com todas as circumstancias. Ás calamidades publicas veiu juntar-se um acontecimento particular que devia atfectar o nosso Poeta: D. Antonio, senhor de Cascaes, seu amigo, fidalgo mui rico e poderoso, foi repentinamente preso com grande apparato e levado ao castello, onde esteve com guardas á vista, de dia e noite, e sua mulher igualmente presa entregue a seu irmão D. Alvaro de Castro, sem que se soubesse o motivo de uma tal resolução, e foi este uma falsa denuncia de um criado, de querer o ' dito D. Antonio entregar Portugal aos lutheranos, e dar-lhe entrada por Cascaes; porém conhecida a innocencia de D. Antonio lhe deu El-Rei toda a satisfação, e ao creado, pelo aleive, mandou prender, e

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