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tomaria trabalho, e elle beijando-lhe a mão lhe disse que estava já pago de todo o trabalho pois se queria servir da sua pessoa, o que faria emquanto lhe durasse a vida. Levantando-se EIRei, foi-se sentar á meza que na salla estava posta para jantar, e disse a Vasco da Gama que elle era contente que elle fosse nos navios que estavam aparelhados para a descoberta da India. ao que Vasco da Gama respondeu que a alma tinha prestes e que não havia detença para se embarcar. Em seguida lhe perguntou EIRei: se tinha algum irmão? «Senhor, lenho trez, um moço. outro que aprende para clerigo, outro o mais velho, e que todos eram homens para servir S. Alteza».— «Pois chamai-o, lhe tornou o Rei, para ir comvosco em um navio». A isto beijou-lhe a mão Vasco da Gama e lhe disse que seu irmão mais velho, Paulo da Gama, em que fallara a S. Alteza, andava homiziado por um ferimento que fizera ao juiz de Setubal.— «Pois eu lhe perdoo o crime satisfazendo elle ás partes e perdoando-lhe a parte». Escreveu Vasco da Gama a seu irmão que tratou de se concertar com o juiz e houve d'elle perdão, pois já o tinha de EIRei. Perdoado este, reconciliado e tornado amigo do juiz, veio á còrte e sendo apresentado a EIRei por seu irmão lhe beijou a mão, recomendando-lhe EIRei que entre ambos combinassem as cousas fraternalmente. Por esta occasião aproveitou Vasco da Gama apresentar a EIRei o seu amigo Nicolau Coelho. — «Senhor, este homem não he somsnos d'irmâo na amizade que temos; este será nosso parceiro ate á morte se V. Alteza o houver por bem que vá no outro navio»1. Assim aprouve ao Rei, pelo que todos lhe beijaram a mão. Gaspar Correia não narra tão circumstanciadamente a despedida e sabida da expedição, o que fazem outros escriptores; da entrega da bandeira por EIRei, como Vasco da Gama e os mais capitães fizeram vigilia

1 Curtas Missivas.

na Ermida do Restello, da Missa que se disse, e como embarcaram indo em devota procissão até embarcar nos navios, acompanhando-os o Rei. Nós preferimos dar o extracto de uma minuta, que se conserva na Torre do Tombo, para uns ricos pannos de tapeçaria que por muitos annos existiram na capella do Paço da Ribeira e dos quaes daremos mais adiante copia completa. *

«Primeiramente como ho almirante,e seu irmão e Nicolao Coelho e todos tres se estando espedindo dElRei, e tomando seu regimento no tempo do primeiro descobrimento e isto em um encasamento».

»Em outro encasamento Nossa Senhora de Bellem peto natural e os frades em procissão ate agua com suas capas e cirios e as nãos quatro que vão a vela 'com as Cruzes de Xptus nas vellas, e os anjos diante, que levaram e o nome de cada não no costado ou onde melhor parecer».

«A Capitayna com bandeira de Xptus e das armas na quadra e outros da divisa e das armas dos

Capitães em cada náo e Ia no despedimento os nomes».

Que o leitor se figure estas quatro embarcações com a Cruz de Christo tomando todo o ambito das vélas, entregando ao signal da nossa Redempção o cuidado de as guiar por esses mares procellosos e não navegados, como pode ver na estampa d'esta armada no nosso volume vi, os anjos na proa dos mesmos navios, e então poderá avaliar quanto pode a fé para inflammar o amor da patria que d'ella deriva, c o desempenbo dos feitos os mais extraordinarios. Isto só por si é um episodio de um grande poema em acção.

Compunha-se a armada de quatro navios, cada um dos trez com o nome de um anjo. Vasco da Gama, segundo Gaspar Correa, ia no S. Raphael, Paulo da Gama no S. Gabriel, Nicolau Coelho no S. Miguel, no Berrio ou dos mantimentos Gonçalo Nunes. Ia de conserva até á Mina Bartholomeu Dias. Por pilotos iam Pedro de Alemquer, que havia navegado com João Infante, João de Coimbra e Pero de Coimbra. Iam em cada navio, conforme o computo do mesmo Correia, uns 80 homens, o que fazia ao todo pouco mais ou menos 240 homens. O lote das embarcações era, conforme a noticia do Mercador Florentino que estava em Lisboa quando chegou a armada, um de 50 toneladas, dous de 90 e uma naveta de 150.

Sahiu a armada a 25 de Março, dia da Annunciação de Nossa Senhora, entregando á sua protecção e dos anjos o feliz exito da sua feliz execução. «E sendo dia de Nossa Senhora de Março, diz Gaspar Correiatodos ouvirão missa e logo se embarcarão e (lerão a vela, e sahirão do rio hindo EIRey no seu batel os acompanhando e fallando a todos com bençãos e boas oras se despedio delles ficando sobre o remo ate desaparecerem como parece desta pintura da cidade». Que pena que se perdesáe o primeiro volume original das Lendas da India: leriamos uma vista do antigo Restello. Mas agora, que temos mettido nas suas embarcações os nossos argonautas, sigamo-los pelo vasto mar na sua aventurosa derrota, e sirva-nos de guia um dos seus ousados navegadores.

1 tendas da índia, liv. i, foi. 15.

NOTA

Sâo os originais manuscritos, que, conforme se pôde constatar, deram éntrada na oficina tipográfica da Imprensa Nacional de Lisboa, em S de Maio de 1880, para o sétimo e último volume das Obras de Luiz de Camões, que hoje se publicam. A Imprensa Nacional de Lisboa, querendo de alguma forma contribuir para a comemoração camoneana que neste momento se celebra em Portugal, julgou oportuno dnr a lume estas páginas que o Visconde de Juromenha, erudito critico e anotador dos Lusiadas, escreveu para o derradeiro volume do seu trabalho, e que, infelizmente, por virtude da sua morte, náo chegou a concluir. Os manuscritos publicados, que representam uma parcela valiosa da riquissima Biblioteca da Imprensa Nacional de Lisboa, estão longe de constituir a cúpula grandiosa que o Visconde de Juromenha se propunha dar às Obras de Luiz de Camões, esclarecendo «os heróicos feitos dos homens ilustres que constituem o âmago do poema nacional», mas valem da nossa parte o máximo que poderiamos ofertar aos bibliófilos, pois que tudo o que o infatigável escritor entregou há quarenta e quatro anos ás nossas oficinas para a conclusão do seu trabalho o restituem elas agora ao público, na pureza do original, e depois de ouvido o conselho sempre sábio e autorizado do ilustre professor Sr. Dr. José Maria Rodrigues, a quem rendemos aqui a nossa profunda admiraçáo e reconhecimento.

Lisboa, 5 de Junho de 1924.

L. n.

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