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E por quanto nos somos çertos do suso escripto e da grande despcza que feita teem e entende. de fazer defendemos &c.», termina adherindo ao pedido do tio, e a carta é assignada por o Infante D. Pedro, Duque de Coimbra «per autoridade do Senhor Ifante dom pedi o regente e dada na vila de penela xxij dias doutubro de 1433».

Continuam as descobertas, já em ilhas, já no continente Africano, ate á morte do Infante, que teve logar em Sagres a 13 de Novembro de 1460, depois de quarenta annos de laboriosos e perseverantes trabalhos de exploração. O seu corpo foi sepultado em Lagos e d'ali trasladado por seu herdeiro de adopção, o Infante D. Fernando, para o Mosteiro da Batalha, e ahi jaz, em um tumulo, na capella que seu pae mandou fazer para seu jazigo entre elle e seus irmãos. Alli está representado em figura de relevo, deitado sobre a campa, vestido de armas brancas, e coroado com coroa real entretecida com folhas de carvalho e uma rosa no meio. Tem trez escudos, o primeiro ás armas de Portugal e as suas, e nos outros dous as insígnias das Ordens que professava. Ha mais de cincoenta annos que visitámos esta capella; esiavamos no vigor da mocidade, e com as calorosas emoções que esta traz comsigo, e com aquellas que inspirava aquelle sanctuario de cavalheirismo e de amor da patria; sim. que aquelles mortos debaixo d'aquellas campas estavam vivos, faltavam a linguagem da heroicidade. Evocavamos um a um aquelles grandes vultos, e parecia-nos que de dentro respondia a linguagem do desprezo. Oh! como tudo nos parecia pequeno cá fora, e decorrera apenas uma decada que os nossos soldados haviam praticado proezas dignas dos soldados de Aljubarrota! Mas que differençal A semente ainda era boa, porém a seiva já trazia o germen da podridão! O Rei fugia, e os nossos soldados eram aguilhoados e conduzidos á victoria pelo estrangeiro!

Por sua morte deixou o Infante descobertas, além do Cabo de Bojador, trezentas c trinta leguas. Seu sobrinho D. Alonso V, apesar da tristissima Alfarrobeira, como mais tarde lhe chamava, e das guerras que provocaram as suas vans preterições ao reino de Castella. progride nas descobertas e conquistas, e accrescenta á conquista de seu avo na Mauritania as praças do Alcacer Seguer. Tanger e Arzilla, que commette em pessoa e lhe grangeia o nome àn Africano. N'esta ultima é armado cavalleiro seu filho D. João II. junto ao cadaver do Conde de Marialva. Manifesta-se mais o braço do Omnipotente n'estas emprezas collocando no throno portuguez um dos Reis mais energico e sciente na arte de reinar, que aviva na tenacidade de as ultimar, e consegue já ver um dos Reis de Africa e a sua côrlc abraçarem a fé catholica. Bartholomeu Dias dobra o' Cabo das Tormentas, ao qual o Rei por auspicioso vaticinio appellida da Boa Esperança, e pelo mesmo motivo quer que D. Manuel, apenas Duque, tome por empreza a esphera. Munido do conselho dos homens da sciencia, e desprezando a offerta de parceria do Imperador Maximiliano resolve-se D. João II a preparar navios para a expedição. Tinha este Rei um instincto particular para conhecer os homens e avaliá-los, exaltando publicamente os seus merecimentos: a D. Francisco de Almeida senta á sua meza; Affonso de Albuquerque parece que estava junto ao seu leito quando faleceu em Alvor.

Andava na sua corte um lidalgo do Alemtejo, mancebo, e que apezar da verdura dos seus annos já servia nas armadas, e grande devia ser o seu merecimento pela empreza

1 Veja-se: Carta Enviada Pelo Dr Jeronymo De Montam De Nuremberg A El-Hei De Portugal D. João Acerca Dos Descobrimentos dos Portugueses Traduzida de Lalim por Fr. Alvaro da Torre Monge Dominicano e Iteimprossa por ura Bibliophilo. O editor e o Sr. Fernandes Thomaz e bom serviço fez aquelle erudito senhor com a publicação deste rarissimo opusculo, de que se conhece um único exemplar que pertence á biblioteca de Évora.

que lhe fôra commettida. Tendo os Francezes tomado uma caravella que vinha da Mina com ouro, logo que o soube EIRei D. João II mandou tirar os lemes e vergas a dez naus que estavam no porto de Lisboa', lançar os Francezes d'ellas, e metler-lhe homens para as guardar e arrecadar cuidadosamente as mercadorias na alfandega, e o mesmo mandou fazer por todo o reino. Para executar esta missão no sul do reino, desde Setubal até ao Algarve, escolheu este mancebo que se chamava Vasco da Gama, e depois havia ser conhecido pelo grande descobridor da India, e para cuja descoberta tinha mandado exploradores por terra, e armada preparada. A morte atalhou este grande Rei de levar ao cabo o seu empenho, ou, para melhor dizer, de todos os seus antecessores, deixando porém, como temos dito, tudo prompto ao seu successor, ao qual estava reservada essa ventura.

Parece que guardava o claro Ceu
A Manuel, e seus merecimentos,
Esta empreza tão ardua, que o moveu
A suhidos e illustres movimentos.

E com rasão o cantou o Poeta na sua Epopéa.

Reunamos lodos os acontecimentos maravilhosos que leva ram ao throno este afortunado Rei e a ser o executor da grande empreza. D. Manuel é filho segundo do Infante D. Fernando, a quem seu tio, o Infante D. Henrique, adopta por successor e herdeiro, e a quem entrega o fio deste labyrinto de mares incognitos; escapa ao cutello de D. João II, e, filho segundo, sobe ao throno em resultado de duas grandes catastrophes de familia: a desastrada morte do Principe D. Affonso, e a rigorosa de seu irmão primogenito o Duque de Viseu, e o afastamento do throno do filho natural do Rei o Duque de Aveiro.

1 Chromca de D. João II, por Garcia de Resende. Edição de Coimbra, 1748, foi. 213.

O proprio D. João II quer que tome a empreza da esphera quando não era ainda seu successor. Mas onde mais se revela a predestinação Divina para grandes commettimentos e venturas, é que, no proprio momento em que nascia, cruzava a sua porta ha hostia consagrada o mesmo Deus; mercê tão miraculosa que lhe dá o nome de Emmanuel! Bafejado pelo afílato Divino logo ao abrir os olhos, misturados e fazendo côro os vagidos do tenro infante ao bemdito dos acompanhantes do Augusto Prestito, como não havia ser afortunado na vida aquelle que logo ao nascer era visitado com graça tão maravilhosa, tão rara e especial!

Faleceu EIRei D. João II em Alvor a 25 de Outubro de 1495, e por sua morte subiu ao throno seu primo D. Manuel. Tinham os nossos Reis um bom e justo costume: não roubavam aos que lhe antecediam a iniciativa dos seus actos. Deixavam um Templo, um edificio em começo, embora quasi nos alicerces; terminava-se e decorava-se com o emblema ou armas do que o mandara executar, e assim vemos edificios concluidos ou quasi mandados levantar por D. Manuel com o emblema do pelicano. O que acontecia com os edificios tinha tambem logar com outras determinações, e assim nos diz Garcia de Resende que EIRei D. Manuel «mandou partir a dita armada, assi como estava prestes, pela mesma ordenação e os mesmos regimentos que estavão feitos, c por capitão o mesmo Vasco da Gama». O interessante narrador das Lendas da Índia nos pinta D. Manuel hesitando na escolha de capitão para a armada que se preparava para sahir; parece-nos porém mais natural que dissimulasse para não oíTender os outros fidalgos, e escolhendo Vasco da Gama não só cortava por todos os melindres pela anterior escolha, mas devia estar certo do acerto d'esta, e que punha em boas mãos o resultado da empreza, pela segurança que tinha como o seu antecessor sabia escolher os homens para os empregos.

Conta-nos Gaspar Correia1 que D. Manuel, depois de ter feito vir de Beja o judeu Abrahão Ben Samuel Zacuto, grande astrologo, que já florecia no tempo de ElBei D. AíTonso Vr a quem dedicara uma obra, lhe expoz que elle não desejava emprehender esta navegação, arriscando em vão despezas e a vida dos seus, sem haver verdadeira informação se seriam coroados os seus esforços, e assim lhe encarregava pelo seu saber de lhe aconselhar se devia ou não progredir no descobrimento da India, e que assim visse o que alcançava pela sua sabedoria, c depois de maduro exame lhe desse a resposta. Voltou o Judeu a Beja, e passado pouco tempo regressou a Lisboa. e se tornou a Hl Rei com muito prazer, e encarecenda a longinquidade da India, suas riquezas e mais circumstanciaslhe disse que estava reservado a S. Alteza descobri-la e subjugá-la em tempo breve, porque o seu planeta era grande sob a divisa da esphera. em que se continham Cens e terra, e que tudo acabaria, o que nunca faria EIRei que Deus tinha ainda que empenhasse todo o seu reino, porque esta cousa Deus a tinha guardado para S. Alteza, e que a India seria descoberta por- dous irmãos, e pelo que dizia a S. Alteza empenhava a sua cabeça.

Muito satisfeito EIRei com a resposta do astrologo. o Judeu, lhe agradeceu muito, e lhe ordenou o segredo, mandando desde logo tratar dos aprestos dos navios, mantimentos, artilharia, munições e mais cousas necessarias para uma tão aventurosa expedição. Conta mais Gaspar Correia que estando EIRei D. Manuel assentado em despacho na meza com seus officiaes, assignando, por acerto lançando os olhos vira atravessar Vasco da Gama; pondo os olhos n'elle se lhe alvoroçou, o coração e o chamou, e pondo-se elle de joelhos lhe disse que folgaria que elle se encarregasse de um serviço em que

1 Lendas da índia. liv. I, foi. 10.

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