Imagens da página
PDF
ePub

GXLIV

Assi foram cortando o mar sereno
Com vento sempre manso e nunca irado,
Até que houveram vista do terreno
Em que nasceram, sempre desejado.
Entraram pela Foz do Tejo ameno;
E á sua patria e Rei temido e amado
0 premio e gloria dão, porque mandou,
E com titulos novos se illustrou.

- GXLV

No mais, Musa, no mais, que a lyra tenho
Destemperada, e a voz enrouquecida;
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se accende o engenho,
Não no dá a patria, não, que está mettida
No gosto da cubiça e na rudeza
D'huma austera, apagada e vil tristeza.

GXLVI

E não sei por que influxo de destino
Não tem hum ledo orgulho e geral gosto,
Que os animos levanta de contino,
A ter para trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no regio solio posto,
Olhai que sois (e vêde as outras gentes)
Senhor só de vassallos excellentes!

GXLVII

Olhai, que ledos vão por varias vias,
Quaes rompentes leões e bravo touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo', a settas e pelouros:
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolatras e de Mouros,
A perigos incognitos do mundo,
A naufragios, a peixes, ao profundo:

GXLVIII.

Por vos servir a tudo apparelhados,
De vós tão longe, sempre obedientes
A quaesquer vossos asperos mandados,
Sem dar resposta, promptos e contentes:
Só com saber que são de vós olhados,
Demonios infernaes, negros e ardentes
Commetterão comvosco, e não duvido,
Que vencedor vos façam, não vencido.

GXL1X

Favorecei-os logo, e alegrai-os

Com a presença e leda humanidade;

De rigorosas leis desalivai-os,

Que assi se abre o caminho á sanctidade:

Os mais exprimentados levantai-os,

Se com a experiencia tem bondade

Para vosso conselho; pois que sabem

O como, o quando, e onde as cousas cabem. GL

Todos favorecei em seus officios,
Segundo tem das vidas o talento;
Tenham Religiosos exercicios
De rogarem por vosso regimento;
Com jejuns, disciplina pelos vicios
Communs, toda ambição terão por vento;
Que o bom Religioso verdadeiro
Gloria vãa não pretende, nem dinheiro.

CJLI

Os cavalleiros tende em muita estima,
Pois com seu sangue intrepido e fervente,
Estendem não somente a Lei de cima,
Mas inda vosso Imperio preeminente:
Pois aquelles, que a tão remoto clima
Vos vão servir com passo diligente,
Dous inimigos vencem; huns os vivos,
E (o que he mais) os trabalhos excessivos.

GLII

Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Gallos, Italos e Inglezes,
Possam dizer, que são para mandados,
Mais que para mandar, os Portuguezes.
Tomai conselhos só d'exp'rimentados,
Que viram largos annos, largos mezes;
Que postoque em scientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.

GLIII

De Phormião, philosopho elegante,
Vereis como Annibál escarnecia,
Quando das artes bellicas diante
Delle com larga voz tratava e lia.
A disciplina militar prestante
Não se aprende, Senhor, na phantasia,
Sonhando, imaginando, ou estudando;
Senão vendo, tratando, e pelejando.

GJLIV

Mas eu que fallo humilde, baixo e rudo,
De vós não conhecido, nem sonhado?
Da bôca dos pequenos sei com tudo,
Que o louvor sahe ás vezes acabado:
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiencia misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas, que juntas se acham raramente.

GLV

Para servir-vos, braço ás armas feito;
Para cantar-vos, mente ás Musas dada;
Só me fallece ser a vós acceito,
De quem virtude deve ser prezada:
Se me isto o Ceo concede, e o vosso peito
Digna empreza tomar de ser cantada,
Como a presaga mente vaticina,
Olhando a vossa inclinação divina:

GLIV

Ou fazendo, que mais, que a de Medusa
A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os Muros de Marrocos e Trudante;
A minha já estimada e leda Musa,
Fico, que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vds se veja,
Sem á dita de Achilles ter inveja.

[ocr errors]
« AnteriorContinuar »