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XV

Não fez o consul tanto, que cercado
Foi nas forcas Caudinas de ignorante,
Quando a passar por baixo foi forçado
Do Samnitico jugo triumphante:
Este, pelo seu povo injuriado,
A si se entrega só, firme e constante;
Estoutro a si e os filhos naturais,
E a consorte sem culpa, que doe mais.

XVI

Vês este, que sahindo da cilada,

Dá sobre o Rei, que cerca a villa forte;

Já o Rei tem preso, e a villa descercada:

Illustre feito, digno de Mavortel

Vê-lo cá vai pintado nesta armada.

No mar tambem aos Mouros dando a morte,

Tomando-lhe as galés, levando a gloria

Da primeira maritima victoria:

XVII

He Dom Fuas Roupinho, que na terra
E no mar resplandece juntamente,
Co'o fogo, que accendeo junto da serra
De Abyla, nas gales da Maura gente.
Olha como em tão justa e sancta guerra,
De acabar pelejando está contente:
Das mãos dos Mouros entra a felice alma
Triumphando nos Ceos, com justa palma.

XVIII

Não vês hum ajuntamento de estrangeiro
Trajo, sahir da grande armada nova,
Que ajuda a combater o Rei primeiro
Lisboa, de si dando sancta prova?
Olha Henrique, famoso cavalleiro,
A palma, que lhe nasce junto á cova:
Por elles mostra Deos milagre visto:
Germanos são os martyres de Christo.

XIX

Hum sacerdote vê brandindo a espada
Contra Arronches, que toma por vingança
De Leiria, que de antes foi tomada
Por quem por Mafamede enresta a lança:
He Theotonio, Prior. Mas vê cercada
Santarem, e verás a segurança
Da figura nos muros, que primeira
Subindo ergueo das quinas a bandeira:

xx

Vê-lo cá onde Sancho desbarata
Os Mouros de Vandalia em fera guerra,
Os imigos rompendo, o alferes mata,
E Hispalico pendão derriba em terra:
Mem Moniz he, que em si o valor retrata,
Que o sepulchro do pai coos ossos cerra:
Digno destas bandeiras, pois sem falta
A contraria derriba, e a sua exalta.

XXI

Olha aquelle, que desce pela lança
Com as duas cabeças dos vigias,
Onde a cilada esconde, com que alcança
A cidade por manhas e ousadias:
Ella por armas toma a similhança
Do cavalleiro, que as cabeças frias
Na mão levava: feito nunca feito!
Giraldo Sem-pavor he o forte peito.

XXII

Não vês hum Castelhano, que aggravado
De Affonso nono Rei, pelo odio antigo
Dos de Lara co'os Mouros he deitado,
De Portugal fazendo-se inimigo?
Abrantes villa toma, acompanhado
Dos duros infieis, que traz comsigo:
Mas vê, que hum Portuguez com pouca gente
O desbarata, e o prende ousadamente:

XXIII

Martim Lopes se chama o cavalleiro,
Que destes levar pode a palma e o louro.
Mas olha hum ecclcsiastico guerreiro,
Que em lança de aço torna o bago de ouro:
Vê-lo entre os duvidosos tão inteiro
Em não negar batalha ao bravo Mouro:
Olha o sinal no ceo, que lhe apparece,
Com que nos poucos seus o esforço crece.

XXIV

Vês, vão os Reis de Cordova e Sevilha
Rotos, co'os outros dous, e não de espaço;
Rotos? mas antes mortos. Maravilha
Feita de Deos, que não de humano braço!
Vês, já a villa de Alcacere se humilha,
Sem lhe valer defeza, ou muro de aço,
A Dom Matheus, o Bispo de Lisboa,
Que a corôa de palma ali coroa.

XXV

Olha hum Mestre, que desce de Castella,
Portugucz de nação, como conquista
A terra dos Algarves, e já nella
Não acha quem por armas lhe resista:
Com manha, esforço e com benigna estrella
Villas, castellos toma á escala vista.
Vês Tavila tomada aos moradores,
Em vingança dos sete caçadores?

XXVI

Vês? com bellica astucia ao Mouro ganha

Sylves, (pie elle ganhou com força ingente:

He Dom Paio Correa, cuja manha,

E grande esforço faz inveja á gente.

Mas não passes os tres, que em França e Hespanha

Se fazem conhecer perpetuamente,

Em desafios, justas e torneos,

Nellas deixando publicos tropheos.

XXVII

Vè-los? coo nomo vem de aventureiros
A Castella, onde o preço sós levaram
Dos jogos de Bellona verdadeiros,
Que com damno de alguns se exercitaram.
Vê mortos os soberbos cavalleiros,
Que o principal dos tres desafiaram,
Que Gonçalo Ribeiro se nomea,
Que pode não temer a lei Lethea.

XXVIII

Attenta n'bum, que a fama tanto estende,
Que de nenhum passado se contenta,
Que a patria que de hum fraco fio pende,
Sobre seus duros hombros a sustenta.
Não no vês tinto de ira, que reprende
A vil desconfiança inerte e lenta
Do povo, e faz que tome o doce freio
De Rei seu natural, e não de alheio?

XXIX

Olha, por seu conselho, e ousadia.
De Deos guiada só, e de sancta estrella.
Só póde, o que impossibil parecia.
Vencer o povo ingente de Castella.
Vês por industria, esforço e valentia
Outro estrago, e victoria clara e bella,
Na gente, assi feroz como infinita,
Que entre o Tartesso c Guadiana habita?

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