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LXXXVIJ

Passavam a ajudar na sancia empresa
0 roxo Federico, que* moveo
O poderoso exercito em defesa
Da cidade onde Christo padeceo:
Quando Guido, co'a gente em sêde aceesa,
Ao grande Saladino se rendeo
No lugar, onde aos Mouros sobejavam
As aguas, que os de Guido desejavam.

LXXXVIII

Mas a formosa armada, que viera
Por contraste de vento áquella parte,
Sancho (piiz ajudar na guerra fera,
Já que em serviço vai do sancto marte:
Assi como a seu pai acontecera
Quando tomou Lisboa, da mesma arte,
Do Germano ajudado, Sylves toma.
E o bravo morador destruc e doma.

I.XXXIX

E se tantos tropheos do Mahometa
Alevantando vai. tambem do forte
Leonez não consente estar quieta
A terra, usada aos casos de Mavorte:
Até que na cerviz seu jugo metta
Da soberba Tui, que a mesma sorte
Vio ter a muitas villas suas vizinhas,
Que por armas tu, Sancho, humildes tinhas.
Mas entre tantas palmas salteado
Da temerosa morte, fica herdeiro
Hum filho seu, de todos estimado,
Que foi segundo Affonso, e Rei terceiro.
No tempo deste aos Mouros foi tomado
Alcacere do Sal por derradeiro;
Porque dantes os Mouros o tomaram.
Mas agora estruidos o pagaram.

XGJ

Morto despois Affonso, lhe succede
Sancho segundo, manso e descuidado.
Que tanto em seus descuidos se desmede.
Que de outrem, quem mandava, era mandado.
De governar o reino, que outro pede,
Por causa dos privados foi privado;
Porque, como por elles se regia,
Em todos os seus vicios consentia.

XGII

Não era Sancho, não, tão deshonesto
Como Nero, que hum moço recebia
Por mulher, e despois horrendo incesto
Com a mãi Agrippina commettia;
Nem tão cruel ás gentes e molesto,
Que a cidade queimasse onde vivia:
Nem tão máo como foi Heliogabalo,
Nem como o molle Rei Sardanapalo.

XGIII

Nem era o povo seu tyrannisado,
Como Sicilia foi de seus tyrannos;
Nem tinha, como Phálaris, achado
Genero de tormentos inhumanos:
Mas o reino, de altivo e costumado
A senhores em tudo soheranos,
A Rei não obedece, nem consente,
Que não for mais que todos excellente.

XGIV

Por esta causa o reino governou
O Conde Bolonhcz, despois alçado
Por Rei, quando da vida se apartou
Seu irmão Sancho, sempre ao ocio dado.
Este, que Affonso o bravo se chamou,
Despois de ter o reino segurado,
Em dilata-lo cuida; que em terreno
Não cabe o altivo peito tão pequeno.

XGV

Da terra dos Algarves, que lhe fôra
Em casamento dada, grande parte
Recupera co'o braço, e deita fora
O Mouro mal querido já de Marte.
Este de todo fez livre e senhora
Lusitania, com força e bellica arte,
E acabou de opprimir a nação forte
Na terra, que aos de Luso coube em sorte.

v XGVI

Eis despois vem Diniz. ijue bem parece
Do bravo Alfonso estirpe nobre e dina;
Com quem a fama grande se escurece
Da liberalidade Alexandrina:
Com este o reino prospero floreee
(Alcançada já a paz aurea divina)
Em constituições, leis e costumes,
Na terra já tranquilla claros lumes.

XGVII

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso officio de Minerva;
E de Helícona as Musas fez passar-se
A pizar do Mondego a fertil berva.
Quanto pode de Atbenas desejar-se,
Tudo o soberbo Apollo aqui reserva:
Aqui as capellas dá tecidas de ouro,
Do bacharo e do sempre verde louro.

XGV1II

• Nobres villas de novo edificou.
Fortalezas, castellos mui seguros;
E quasi o reino todo reformou
Com edificios grandes e altos muros.
Mas despois que a dura Atropos cortou
O fio de seus dias já maduros,
Ficou-lhe o filho pouco obediente,
Quarto Affonso. mas forte e excellente.

IOM. VI

XGIX

Este sempre as soberbas Castelltanas
Co'o peito desprezou firme e sereno;
Porque não he das forças Lusitanas
Temer poder maior, por mais pequeno:
Mas porém, quando as gentes Mauritanas
A possuir o Hesperico terreno
Entraram pelas terras de Castella,
Foi o soberbo Affonso a soccorre-la.

Nunca com Semiramis gente tanta
Veio os campos Hydaspicos enchendo:
Nem Attila, que Italia toda espanta.
Chamando-se de Deos açoute horrendo,
Gothica gente trouxe tanta, quanta
Do Sarraceno barbaro estupendo,
Co'o poder excessivo de Granada,
Foi nos campos Tartessios ajuntada.

GI

E vendo o Rei sublime Castelhano
A força inexpugnabil, grande e forte,
Temendo mais o fim do povo Hispano,
Já perdido huma vez, que a propria morte
Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
Lbe mandava a charissima consorte,
Mulher de quem a manda, e filha amada
Daquelle a cujo reino foi mandada.

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