A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira

Capa
Companhia das Letras, 1997 - 484 páginas
Um dos primeiros atos dos portugueses que chegaram ao Brasil em 1500 foi abater uma árvore para montar a cruz da primeira missa. NEsse gesto premonitório fez-se a primeira vítima da ocupação européia da Mata Atlântica, que cobria boa parte do território brasileiro. NOs cinco séculos que se seguiram, cada novo ciclo econômico de desenvolvimento do país significou mais um passo na destruição de uma floresta de um milhão de quilômetros quadrados, hoje reduzida a vestígios.É Esse desdobramento trágico de uma lógica sempre apresentada como inexorável pelos defensores da civilização que Warren Dean conta neste livro pioneiro de história ambiental, trazendo uma visão nova e polêmica da História do Brasil.

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A FERRO E FOGO: A HISTÓRIA E A DEVASTAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA BRASILEIRA
Warren Dean
Companhia das Letras, São Paulo, 1996.
Sobrevoando o que restou da Floresta Tropical brasileira e observando, com um tom de indignação, as cicatrizes deixadas nesta pelas “manifestações da civilização”. Assim, Warren Dean inicia seu livro, uma obra sobre a história das relações entre o homem e um dos mais importantes ecossistemas mundiais — a Mata Atlântica brasileira —, avaliando as várias fases e consequências da interferência humana sobre esse ecossistema único, desde os primórdios da “invasão humana” até os tempos atuais.
A Ferro e Fogo foi a última obra de Dean antes de seu falecimento em um trágico acidente automobilístico em Santiago, no Chile. Historiador estadunidense, considerado um brasilianista, Warren Dean já havia contribuído anteriormente para a historiografia brasileira com outras obras: A industrialização de São Paulo (1967), Rio Claro: Um sistema brasileiro de plantation (1976) e O Brasil e a luta pela borracha (1987), sendo esta última considerada como a porta de entrada do autor para o campo da história ambiental.
Em A Ferro e Fogo, W. Dean toma como foco principal a história da relação homem e Mata Atlântica, contracenando com a própria história do Brasil, passando pela sua “descoberta” pelos portugueses, períodos colonial, imperial e republicano até o inicio dos anos 1990.
A Mata Atlântica teve sua gênese após a separação de uma imensa massa continental, Pangéia. A evolução de vegetais locais e sua interação com os animais nativos propiciaram o surgimento de inúmeras espécies endêmicas. A história desta imensa floresta tropical esteve ligada ao avanço e recuo de geleiras dos períodos glaciais. Com o recuo do gelo e volta do calor, a floresta se reconstituía, transformando suas espécies e suas inter-relações. Enquanto o gelo da última era glacial retrocedia, do outro lado do oceano Atlântico, na África, surgiam os primeiros ancestrais do homem, que, milhares de anos depois, viria a “invadir” e conquistar o que seria a América.
Segundo Dean, a “primeira leva de invasores humanos” da Mata Atlântica deu-se há talvez 13 mil anos, não havendo, contudo, evidências arqueológicas que comprovem uma data mais precisa. Os primeiros invasores eram caçadores-coletores, vivendo da coleta de frutos selvagens e da caça de espécimes da megafauna local, que, devido ao recuo das geleiras, estavam desaparecendo dos campos e cerrados. Alguns métodos de caça utilizavam o fogo para tocar animais maiores, o que nos faz questionar se essas práticas já implicavam em algum dano à floresta próxima aos locais de caça.
Entretanto, com a adoção da agricultura, a interação entre homem e floresta tornou-se mais intensa e danosa a esta. A prática adotada para o plantio foi a de coivara, isto é, o corte seguido de queima da mata nativa para limpeza e fertilização do terreno, que demonstrou ser muito mais viável nos solos da floresta, devido à quantidade e qualidade das cinzas da imensa biomassa vegetal existente. Esse método de agricultar deve ter gerado danos a áreas significativas da floresta, uma vez que, após a queimada e duas ou três temporadas de plantio, o solo era abandonado e os caçadores-coletores migravam para outro local. Nos locais abandonados surgiam as capoeiras, terras onde apareciam florestas secundarias, o que demonstra que a mata poderia ter certo grau de recuperação. Mesmo ocasionando danos consideráveis a mata, a prática da coivara foi muito menos danosa a floresta quando comparada ao que esperava pela Mata Atlântica com a chegada dos próximos invasores.
Se a obra de Dean tem como objetivo a história da devastação da floresta tropical brasileira, então é com a chegada dos portugueses que o trator da destruição de fato ganha velocidade. Nos capítulos referentes ao período colonial, Dean relata como a exploração do pau-brasil e a cultura canavieira causaram danos irreversíveis
 

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