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Cordões

Oh! abre ala!
Que eu quero passá
Estrela daAlva

Do Carnavá!

Era em plena Rua do Ouvidor. Não se podia andar. A multidão apertaVa-se, sufocada. Havia sujeitos congestos, forçando a passagem com os cotovelos, mulheres afogueadas, crianças a gritar, tipos que berravam pilhérias. A pletora da alegria punha desvarios em todas as faces. Era provável que do Largo de S. Francisco à Rua Direita dançassem vinte cordões e quarenta grupos, rufassem duzentos tambores, zabumbassem cem bombos, gritassem cinquenta mil pessoas. A rua convulsionaVa-se como se fosse fender, rebentar de luxúria e de barulho. A atmosfera pesava como chumbo. No alto, arcos de gás besuntavam de uma luz de açafrão as fachadas dos prédios. Nos estabelecimentos comerciais, nas redações dos jornais, as lâmpadas elétricas despejavam sobre a multidão uma luz ácida e galvânica, que enlividescia e parecia convulsionar os movimentos da turba, sob o panejamento multicolor das bandeiras que adejavam sob o esfarelar constante dos confetti, que, como um irisamento do ar, caíam, voavam, rodopiavam. Essa iluminação Violenta era ainda aquecida pelos braços de luz auer, pelas vermelhidões de incêndio e as súbitas explosões azuis e verdes dos fogos de Bengala; era Como que arrepiada pela Corrida diabólica e incessante dos archotes e das pequenas lâmpadas portáteis. Serpentinas riscavam o ar; homens passavam empapados d*água, Cheios de confetti; mulheres de Chapéu de papel curvavam as nucas ã etila dos lança-perfumes, frases rugiam cabeludas, entre gargalhadas, risos, berros, uivos, guinchos. Um cheiro estranho, misto de perfume barato,fartum, poeira, álcool, aquecia ainda mais o baixo instinto de promiscuidade. A rua personalizava-se, tornava-se uma e parecia, toda ela policromada de serpentinas e confetti,arlequinar o pincho da loucura e do deboche. Nós íamos indo, eu e o meu amigo, nesse pandemônio. Atrás de nós, sem colarinho, de pijama, bufando, um grupo de rapazes acadêmicos, futuros diplomatas e futuras glórias nacionais, berrava furioso a Cantiga do dia, essas Cantigas que só aparecem no Carnaval:

Há duas Coisa
Que me faz Chorá
E nó nas tripa

E bataião navá!

De repente, numa esquina, surgira o pavoroso abrealas, enquanto, acompanhado de urros, de pandeiros, de xequerês, um outro cordão surgia.

Sou eu! Sou eu!
Sou eu que cheguei aqui

Sou eu Mina de Ouro

Trazendo nOssO Bogari.

Era intimativo, definitivo. Havia porém outro. E esse Cantava adulçorado:

Meu beija-flor

Pediu para não contar
O meu segredo

A Iaiá.

Só conto particular.
Iaiá me deixe descansar
Rema, rema, meu amor

Eu sou O rei do pescador.

Na turba compacta o alarma correu. O cordão vinha assustador. A frente um grupo desenfreado de quatro ou cinco cabOclOs adolescentes com os sapatos desfeitos e grandes arcos pontudos corria abrindo as bocas em berros rOucos. Depois um negralhão tOdO de penas, com a face lustrosa como piche, a gotejar suor, estendia O braço musculoso e nu sustentando O tacape de ferrO. Em seguida gargOlejava o grupo vestido de vermelho e amarelo com lantejoulas d,Ouro a chispar no dOrsO das casacas e grandes cabeleiras de cachos, que se confundiam com a epiderme num empastamento nauseabundO. LadeandO O bolo, homens em tamancos ou de pés nus iam por ali, tropeçando, erguendo archOtes, carregando serpentes vivas sem os dentes, lagartos enfeitados, j abutis aterradores cOm grandes gritos rOufenhos.

Abriguei-me a uma porta. Sob a chuva de confetti, o meu companheiro esforçava-se por alcançar-me.

_ Por que foges?

_ Oh! estes cordões! Odeio o cordão.

_ Não é possível.

_ Sério!

Ele parou, sorriu:

_ Mas que pensas tu? O cordão é o carnaval, o cordão é vida delirante, o cordão é o último elo das religiões pagãs. Cada um desses pretos ululantes tem por sob a belbutina e o reflexo discrômico das lantejoulas, tradições milenares; cada preta bêbada, desconjuntando nas tarlatanas amarfanhadas os quadris largos, recorda o delírio das procissões em Biblos pela época da primavera e a fúria rábida das bacantes. Eu tenho vontade, quando os vejo passar zabumbando, chocalhando, berrando, arrastando a apoteose incomensurável do rumor, de os respeitar, entoando em seu louvor a “prosódia” clássica com as frases de Píndaro _ salve grupos floridos, ramos floridos da vida...

Parei a uma porta, estendo as mãos.

_ E a loucura, não tem dúvida, é a loucura. Pois é possível louvar o agente embrutecedor das cefalgias e do horror?

_ Eu adoro o horror. É a única feição verdadeira da humanidade. E por isso adoro os cordões, a Vida paroxismada, todos os sentimentos tendidos, todas as cóleras a rebentar, todas as ternuras ávidas de torturas.

Achas tu que haveria carnaval se não houvesse os cordões? Achas tu que bastariam os préstitos idiotas de meia dúzia de senhores que se julgam engraçadíssimos ou esse pesadelo dos três dias gordos intitulado _ máscaras de espírito? Mas o Carnaval teria desaparecido, seria hoje menos que a festa da Glória ou o “bumba-meu-boi” se não fosse o entusiasmo dos grupos da Gamboa, do Saco, da Saúde, de S. Diogo, da Cidade Nova, esse entusiasmo ardente, que meses antes dos três dias Vem queimando como pequenas fogueiras crepitantes para acabar no formidável e total incêndio que envolve e estorce a cidade inteira. Há em todas as sociedades, em todos os meios, em todos os prazeres, um núcleo dos mais persistentes, que através do tempo guarda a chama pura do entusiasmo. Os outros são mariposas, aumentam as sombras, fazem os efeitos.

Os cordões são os núcleos irredutíveis da folia carioca, brotam como um fulgor mais vivo e são antes de tudo bem do povo, bem da terra, bem da alma encantadora e bárbara do Rio.

Quantos cordões julgas que há da Urca ao Caju? Mais de duzentos! E todos, mais de duas centenas de grupos, são inconscientemente os sacrários da tradição religiosa da dança, de

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