PERSEGUIÇAO

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SARAIVA EDITORA - 104 páginas
2 Resenhas
Não, não, este não é um livro de aventura. A perseguição é outra. E tem nome: bullying. Leo e Malu sofrem esse tipo de perseguição no nono ano: são alvos de comentários maldosos, apelidos depreciativos, agressões gratuitas, brincadeiras de mau gosto. Todos os dias. Por causa do cabelo, do peso, da roupa, não importa. É tudo preconceito. Preconceito? "Ah, mas é só brincadeira!", alguns vão dizer. "Não precisa ser radical, qual o problema? Eles não ligam...". Ligam sim. E não sabem o que fazer. Em quem confiar? Para quem contar? Como anular as provocações e reestruturar a autoestima? Duas pessoas, duas histórias semelhantes, mas com duas formas diferentes de lidar com a situação.

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esse texto me inspirou pq ele fala sobre o bullyng.
vou comentar um pedaço dessa historia
VIDA NO ESCURO
As paredes da sala ressoavam lembranças. Elas estavam lá, dependuradas. Todas as fotografias.
Fabiano e a mãe fazendo castelo de areia na praia. Quantos anos deveria ter? Cinco, no máximo seis. A mãe era linda. Usava um maiô inteiro azul. Azul como o céu da fotografia. Tinha a pele rosada, bronzeada pelo sol de janeiro. Ele, loirinho, sorriso maroto com o canto dos lábios, a cabeça inclinada próxima ao braço da mãe. Deixara os pequenos olhos azuis quase fechados, tentando amenizar a luz do sol que batia em sua face.
Fabiano entre os irmãos. O braço de um por cima do ombro do outro. Esta tinha sido logo após o jogo, no dia em que se tornara campeão. Era muito bom no vôlei. Sabia disso. Marcelo e Lídia haviam saltado da arquibancada para beijá-lo no momento em que o juiz apitara o final da partida. Alguém fotografara os três, não lembrava direito quem. Conseguira a foto com o professor de Educação Física.
— Você merece — ele disse. — Fica como um presente meu.
Fabiano estendeu a mão e pegou a fotografia. Já ia saindo, quando o professor o chamou de volta.
— Você é muito bom. Invista nisso.
Fabiano sorriu.
— Tá certo, professor.
Colocou a foto num quadro, juntando às outras mais tarde, na parede da sala. Tinha então quatorze anos. Não fazia muito tempo. Dois anos, não mais que isso.
Fabiano e o pai abraçados. Lídia batera a foto. Estavam todos na piscina da chácara, ele e o pai tomando conta do churrasco. A irmã tinha pedido para os dois fazerem uma pose. De um lado, o pai abraçava Fabiano; do outro, segurava um espeto de carne.
Fabiano e Rosana. Um de frente para o outro. Olhos fechados, lábios delicadamente colados. Era a lembrança que mais lhe doía.
Rosana era meiga, o rosto miúdo. Os olhos castanhos, pequenos e redondos, conferiam-lhe o olhar de uma garotinha frágil, indefesa. Quanto engano. Se assim fosse, ela não teria dito tudo o que dissera, todas aquelas palavras. Tinha sido dura, sim. Cruel, Fabiano pensou. Culpado, Fabiano sentiu-se. Um nada.
Fabiano passou a mão trêmula pelo rosto de Rosana. Deslizou-a pelo vidro do retrato até encostá-la no lábio da menina. O calor daquele beijo quase ali. Na ponta dos dedos. O quadro se mexeu, ficou torto, por muito pouco não caiu.
Piscou duro por duas vezes e novamente se deteve na parede de memórias. Tentou contar. Quantas memórias havia ali? Quinze? Vinte? Quarenta? Os quadros estavam se duplicando, triplicando à sua frente. Sua visão tornava-se embaçada outra vez.
Cambaleou ao aproximar-se da parede para enxergar melhor e esbarrou o braço no quadro em que beijava Rosana. O quadro caiu. Antes que Fabiano caísse junto, ainda pôde ouvir o vidro se quebrando. O som do estilhaço era o próprio som da sua vida. Destruída.
De nada mais lhe adiantavam as fotografias. Nem Rosana, nem ninguém. Agora era tarde. Fabiano estava morto.
 

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PERSEGUIÇÃO / Tânia Alexandre Martinelli

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