O medo ao pequeno número: ensaio sobre a geografia da raiva

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Iluminuras, 2009 - 111 páginas
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As transformações na economia mundial desde a década de 1970 produziram efeitos consideráveis nas relações entre as nações e as pessoas. Multiplicaram se as disputas e preocupações sobre soberania nacional, indigenismo, imigração, liberda de, mercado, democracia e direitos humanos. Algumas ditaduras sumiram, outras permaneceram ativas e uma ou outra mais insiste em afirmar se no palco mundial como se as mudanças no mundo ao longo do último meio século não tivessem existido. A macroviolência tomou aspectos insuspeitados e a violência cotidiana instalou se de vez nos países subdesenvolvidos e se faz sempre mais presente no chamado primeiro mundo que parece por vezes a ponto de deixar de sê-lo.

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Raiva e Medo no Mundo de Hoje
Felipe Cherubin
Violência nas relações internacionais é o tema do indiano Arjun Appadurai
Com O Medo ao Pequeno Número: Ensaio Sobre a Geografia da Raiva, o antropólogo indiano Arjun Appadurai chega à segunda parte de um projeto de análise das dinâmicas culturais do mundo globalizado. O primeiro volume, Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization, foi publicado em 1996, e tratou do futuro das soberanias nacionais e de como cultura, migração e mídia cooperavam na modificação de um mundo que se transformava rapidamente.
A pesquisa surgiu a partir dos conflitos entre hindus e muçulmanos ocorridos em Mumbai, entre 1992 e 1993, e era parte de um estudo mais ambicioso, uma espécie de história comparada da violência étnica em larga escala depois de 1989. São essas investigações que encontramos no Ensaio, de 2004.
Appadurai parte da premissa que vivemos num mundo em que a articulação política e midiática mudou de maneira radical, nacional e regionalmente: o medo parece ser a raiz de intensas campanhas de violência grupal. Sua argumentação gira em torno de uma dupla de fundamentos, na base de dois tipos de violência coletiva: o fracasso do ideal de progresso e das utopias nacionalistas; e o surgimento da Guerra ao Terror, depois do 11 de setembro.
A inserção de minorias, estrangeiros e migrantes redefine a dinâmica social e cultural. Appadurai pontua que o perigo surge quando formas de incerteza social criam tensão a ponto de a violência servir como catarse. Vivemos o retorno de formas mais simples de violência. Appadurai cita o antropólogo francês Rene Girard e seu conceito de “sacrifico”; e junta-se a ele na hipótese de que estaríamos diante de novas formas do velho mecanismo sacrificial, citando a decapitação de Daniel Pearl, logo após o 11/9, no Paquistão.
Os fatos ocorridos no 11 de Setembro e o processo de globalização fizeram com que a obra de Samuel Huntington fosse ressuscitada com a sua tese do choque de civilizações. Para o indiano, porém, o erro de Huntington está em considerar culturas como espécies de icebergs que se chocam e são identificados territorialmente. Guerras estão sendo travadas por um novo agente, desinteressado em fundar estados ou colonizar territórios. Appudurai afirma que, no caso do 11/9, deu-se uma guerra contra os EUA mas também contra a ideia de que só os estados estão em jogo. Se ele está correto, testemunhamos a morte do paradigma de Hans J. Morgenthau – de que a luta pelo poder e pela paz é articulada por uma política entre as nações; e se este paradigma das relações internacionais está obsoleto, o problema é: não temos outro para colocar em seu lugar.
O Estado de S. Paulo
http://digital.estadao.com.br/download/pdf/2010/03/20/S6.pdf
 

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